terça-feira, 16 de abril de 2013

Strange - Capítulo 5

Horas depois...

 POV Letícia on


Eu estava cansada, mas não conseguia dormir, mas uma cama macia era tão bom. Aqueles dias perdida no meio daquela floresta foi horrível. Eu resolvi me levantar para pegar um copo de água, todo o corpo parecia reclamar de dor. Eu desci as escadas lentamente e eu fui caminhando até sentir o cheiro de queimado. Que coisa estranha! Tão queimando coisas!? Será!?


– Olha, a nossa convidada chegou. – o Gustav disse rindo.


– Estávamos esperando você. – o Tom disse, enquanto mostrava a única foto que eu tinha dos meus pais presa entre os seus dedos. Era a única coisa que eu tinha, a única coisa que ainda me mantinha de pé, foi a única coisa que eu trouxe comigo. Eu não tinha mais nada, nada mesmo! Aquilo me deu um aperto forte no peito, eu sabia que eles iam fazer algo.


– Me dá isso! – eu disse.


– Nossa, vem pegar. – o Gustav disse passando a foto para o Bill que começou a abana - la e a passa – la por cima das chamas, sem a deixar queimar.


Eu não conseguia correr, mas eu tentei andar mais rápido, os meus tornozelos estavam doendo, a minha cabeça também estava doendo. Eu acabei caindo no chão, me atrapalhando para ir buscar a foto. Eu fiquei tentando pegar a foto várias vezes e estava ficando muito cansada, de tanto tentar pegar a foto. Até o Bill a jogou nas chamas.


– Ops, caíu. – ele disse rindo alto.


Eu caí sobre os meus joelhos e comecei a chorar, a chorar sem parar. Foi uma sensação de desespero, de dor, de tudo misturado. Eu chorava alto e compulsivamente, eu não conseguia parar. Eu coloquei a mão na frente da minha boca para tentar parar os soluços, mas eles não paravam de sair pela minha boca. Eles ficavam me olhando sem entender nada.


– O que vocês fizeram!? – a Diana perguntou surpresa entrando dentro de casa.


– Essa garota, é que gosta de fazer show. – o Gustav disse. – Nós só queimamos uma foto. – ele disse. – Uma foto com os pais dela, mais nada. Também não é para tanto.


– Vocês não podiam ter feito isso, era a única coisa que ela tinha deles. Parem de fazer isso! Parem! Chega! - ela disse irritada.


– Única!? – o Bill perguntou. – Letícia, nós não sabíamos que...isso era assim tão importante. – ele disse.


Eu não conseguia parar de chorar. A Diana me abraçava de lado, mas nada do que ela disse - se iria me acalmar.


– Desculpa! – o Georg disse. – Eles não sabiam, não fizeram com a intenção.


– Chega! Georg, isso já foi longe de mais. – a Diana disse. – Cara, esses seus amigos, são uns idiotas. Não sei como podem ser assim. Ela não fez nada para vocês.


– Diana, deixa. – eu disse me levantando e saí do jardim caminhando o mais rápido que conseguia.


– Letícia, espera! Onde você vai!? – ela me perguntou, mas parecia que eu não conseguia mais escutar uma única palavra.


As lembranças inundavam a minha mente e eu não podia mais suportar estar ali. Aquela foto, sendo queimada, eu não tinha mais nada para perder, mais nada. Eu vim para uma república, deixei tudo para vir estudar.


– Porque? Porque você disse que ia estar aqui sempre comigo!? Você mentiu! – eu sussurrei para mim mesma.


Eu estava completamente desesperada, cansada, cansada de ninguém entender que eu ainda estava sofrendo. Que eu estava me sentindo um lixo humano!! Eu precisava colar os pedacinhos do meu coração, mas ninguém conseguia me dar um momento de paz. Eu só queria entender porque eu tinha que sofrer daquele jeito!? Eu estava sofrendo quando a minha mãe estava doente. Eu já estava tão desesperada para tudo ser mentira e me convencer que ela ia ficar bem, que ela ia sempre ficar do meu lado. Que iria me ver entrar na faculdade, que iria festejar comigo, que iria me ver casar, ter filhos. Ela ia cuidar dos netinhos, ela ia sempre estar do meu lado.


Agora, parece que levei um banho de água gelada, não tinha a quem ligar para contar o que estava acontecendo. A minha última ligação com ela e o meu pai era aquela foto! A minha vontade era sumir, desaparecer para sempre. Eu estava ficando sem mais forças.


POV Letícia off


POV Bill on


E agora!? Nós não sabíamos que era a única coisa que ela tinha dos pais.


– Diana, nós não sabíamos que era a única coisa que ela tinha! Nós só queríamos nos divertir com ela, por ela ser nova na faculdade. – o Tom disse se sentindo culpado.


– Divertir!? Tom, isso não é diversão! Vocês sempre acham que estão brincando! Não custava respeitar a morte da mãe dela. Vocês imaginam o quanto deve estar sendo difícil!? Ela não tem mais ninguém! Custa ajudar!? Custa entender!? Como vocês se sentiriam se fosse com vocês, na vossa mãe!? Se vocês não tivessem mais ninguém! Sabem o que não é ter mais ninguém!? Se coloquem no lugar dela!!! Eu nem quero imaginar se fosse com a minha! A mãe dela estava com uma doença terminal, vocês sabem que quando o familiar fica doente, o resto da família também fica. Eu nem quero pensar como deve estar sendo duro demais para ela!! Ela cuidou da mãe dela, isso não foi brincadeira, não. Ela viu a mãe morrendo aos poucos, a esperança de cura desaparecer por entre os dedos dela. – a Diana disse séria.


Me custou escutar aquelas palavras dela e ver as dimensões que tudo isso começa a ter. Agora tínhamos mexido em algo grave, muito sério. A foto estava feita em cinzas, não restava nada. Me arrepiou quando ela falou que podia ser com a minha mãe. Se fosse com ela nas condições que a Letícia enfrentou, não sei como teria reagido. Eu senti que o meu irmão ficou com medo do que a Diana disse.


– Nós não sabíamos disso. – o Gustav disse.


– Deveriam pedir desculpas e ter vergonha do que fizeram! – ela disse. – Cara a Letícia é boa demais com vocês! Se fosse eu já teria armado o maior escândalo! – a Diana disse irritada.


A Diana entrou e nós ficamos ali nos olhando, eu não conseguia dizer nada. As palavras pareciam ter sumido, eu estava arrependido e me sentindo culpado. Os outros foram dormir, mas eu estava preocupado.


Eu entrei no quarto dela e me arrependi umas mil vezes de ter aceite aquele plano idiota. Ela não estava e nem conhecia bem a cidade. Será que está tudo bem!? Estava começando a ficar preocupado, ela nunca mais dava sinal de vida. Acabei pegando no sono na sofá.


No dia seguinte...


– Bill, Bill! Bill, acorda! – era alguém me chamando.


Eu abri os olhos pesados de sono e vi a Diana com uma expressão preocupada e aflita.


– Bom dia! O que foi!? Estou atrasado!? – eu perguntei confuso.


– Você tem que me ajudar! – ela disse. – A Letícia não voltou, eu estou preocupada. – ela disse.


– COMO!? Como não voltou!? Mas ela vai voltar certo!? Diana, ela já deve ter saído! – eu disse tentando parecer calmo e até um pouco indiferente.


– Não, Bill! Você não está entendendo, ela não está no quarto. O quarto está igualzinho desde que ela saiu daqui ontem de noite! Tá vendo o que vocês fizeram!? – ela disse nervosa.


De repente escutamos o barulho da porta do jardim sendo aberta, era ela. O que aconteceu com ela!? Ela vinha com a roupa de ontem e simplesmente não abriu a boca para nada.


– Letícia, estávamos tão preocupados! – a Diana disse, mas ela simplesmente não disse nada e subiu as escadas sem abrir a boca.


A Diana ficou a olhando sem entender nada.


– Eu vou falar com ela. – ela disse e eu fiquei a olhando subir as escadas.


A Letícia não era como as outras garotas, produzidas, que usavam aquelas micro saias e blusas que eu e os outros gostávamos. Tirando o Georg que de tão fiel, nem olhava! Era até engraçado. Nós apenas zoávamos as meninas como a Letícia, porque ela era nerd, tinha um jeito intelectual e era por diversão. Nunca pensamos que isso pudesse mesmo machucar. Nós tínhamos fama e éramos temidos na faculdade por isso. O meu irmão nem os outros iriam parar, era uma questão de continuarmos a provocar medo nos outros e o terror. Aquilo nos fazia sentir importantes e de certa maneira poderosos. Não iríamos parar porque iríamos destruir toda a nossa popularidade por causa dela. Mas aquela conversa de ontem mexeu comigo, de um jeito estranho. Eu fiquei incomodado e me sentindo culpado mesmo. O mais estranho foi ela não abrir a boca desde que entrou.


Ela desceu as escadas e a Diana vinha reclamando pelas escadas preocupada. Eu nunca tinha visto a Diana assim, a situação era tensa, mas a Letícia simplesmente nem reagia a nada do que ela dizia por mais que ela se esforçasse.


– Letícia! Letícia, você não pode sair de casa sem comer. Não pode ir para as aulas toda machucada, sem dormir, sem comer! Não é por mais um dia! – ela disse brava.


A Letícia saiu e a Diana se sentou do meu lado, nervosa.


– Diana! O que aconteceu!? – eu perguntei.


– Eu não sei. Bill, isso deve ter mexido tanto com ela. Agora, ainda vai ser pior do que antes. – ela disse preocupada.


– O que você quer dizer com isso!? – eu disse, agora aquilo estava começando a me preocupar mesmo.


– Bill, você não viu o jeito que ela está mesmo. – ela disse.


– Ela não te contou nada!? Nada mesmo!? – eu perguntei curioso.


– Não, ela agora ainda se fechou mais. Isso me dá medo, Bill! – ela disse.


Não era só ela que estava medo, eu também estava.


POV Bill off


POV Letícia on


Aquela noite apenas me ajudou a pensar, a pensar o que fazer. Eu estava mergulhada nos meus pensamentos, quando sem querer bati em alguém e os meus cadernos caíram no chão.


– Letícia, desculpa. Eu não tinha te visto, eu estava distraído. – era o Mateus.


– Me desculpa, você. Eu também estava distraída. – eu disse e ele sorriu.


Eu tentei fazer um sorriso, mas acho que não resultou.


– Nossa, foi assim tão ruim!? Que carinha é essa!? O que aconteceu!? A Diana me ligou hoje, ela está preocupada com você. Você não quer me contar o que está acontecendo!? – ele disse.


– Me desculpa, mas hoje não! Eu não quero. – eu disse desviando o olhar.




– Porque!? Não precisa se fechar assim! Pode falar comigo, guardar para você não faz nada bem. – ele disse.


– Você é teimoso. – eu disse e ele riu.


– Nossa, sou muito! Ainda bem que você descobriu já, vai que se arrepende de virar amiga de um teimoso, como eu! – ele disse e eu ri.


Eu não ria fazia meses, eu consegui voltar a rir. Eu já não sabia o que era isso há tanto tempo, que até me surpreendi.


– O que foi!? - ele perguntou.


– Nada, eu já não ria faz muito tempo! – eu disse com vergonha.


Senti o meu braço ser puxado e o Mateus fechar a cara.


– Porque saiu de casa daquele jeito!? Eu sei que exageramos, mas não precisava ficar fora de casa a noite toda. Nós estávamos preocupados. – era o Bill e não parecia nada feliz.


Preocupados!? Essa deve ser outra piadinha ou brincadeirinha daqueles quatro. Cara, ele nunca se cansa!? Meu deus, o que fiz para esse garoto!?


POV Letícia off

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